segunda-feira, 29 de novembro de 2021
Desprendimento
sexta-feira, 26 de novembro de 2021
Delírio
É como se meu coração desfalecido
recebesse uma injeção de adrenalina
e descompassado em taquicardia,
voltasse a viver.
As batidas desenfreadas dizem teu nome
E na sensação de quase morte posso te ver, te tocar.
Ouço tua voz me chamar
E teu cheiro me conduz ao passado,
onde o infinito se reencontra pelo prazer,
Um mundo que só existe pelo sonho.
E a cada sinal de ti, deliro,
Canto, sorrio
Morro e vivo.
Passado e presente voltam a se encontrar,
E nossas almas se entrelaçam e dançam
Neste mundo etéreo criado pra nós.
E quando a matéria pensa em libertar nossos espíritos
O dia amanhece
E traz de volta a realidade
Embora, ainda preso em nós, o pássaro da saudade cante
Esse amor que ficou pra trás.
Paula Belmino
sexta-feira, 8 de outubro de 2021
15 anos
Desde o primeiro dia
Amei-te ao saber nem existir
Cada batida do coração
O milagre a se descobrir.
E ao ver-te pela primeira vez
O olhar de flor rara azul
Seu choro calou o meu,
No meu peito ansiedade murchou.
Não havia mais bela como tu
Primaverou-se para sempre minha vida
E tuas pequenas mãos
A meu ser deu forte guarida.
Agora em seus quinze anos
Tudo se faz jardim
A luz me abraçou
O sol brilha só pra mim.
Desabrocha a primavera inteira
Em seus perfumes delicados
Nas suas cores diversas
És a estação mais esperada.
Desabrochas no sorriso
Na ternura do teu olhar
És toda vida a pulsar
E toda primavera a encantar.
Paula Belmino
.
Dia 5 de Outubro de 2021 minha Alice fez 15 primaveras.
Obrigada por existir meu amor Alice. Feliz 15 anos e muitos longos e felizes com sonhos realizados, saúde, paz e sabedoria.
.*Fotografia de Ônio Lima
terça-feira, 28 de setembro de 2021
Trilhas
Há caminhos que nos levam ao encontro da gente com a vida, momentos simples e tão especiais que ficam guardados para sempre na memória afetiva:
O visitar um parente, o reencontrar amigos, o recolher-se do mundo externo para entrar em conexão consigo mesmo, com nossa espiritualidade. Caminhos que nos ensinam a valorizar a natureza, a paisagem, sentir o vento no rosto, e a calmaria no coração.
Há estradas que são ladeadas de ensinamentos e verdades, de alegrias, de festa, sorriso ou silêncio. Mas, cuidado, pois nem todos os caminhos são de vida e de alegria, é preciso fazer a escolha certa.
Saber seguir por elas e escolher o melhor trajeto e focar no centro da valorização do amor e da amizade e do que nos faz feliz, é acertar o caminho, pois seguindo para a luz, a gente sempre encontra a paz , o bom caminho.
Paula Belmino
sexta-feira, 24 de setembro de 2021
Flores Vivas
Ofereço-te flores
intactas.
Na natureza sob olhares,
Pelas mãos nunca arrancadas.
Dou-te em visão, uma flor,
deslumbramento.
Nas mãos, porém, só
flores, da arte abstrata.
As do jardim, deixai-as viver,
e serem amadas pelas borboletas
joaninhas, abelhas e cigarras.
E por teu olhar cativo,
ansioso de primavera.
Nas mãos ofereço-te apenas
as flores especiais,
Quiçá, um toque no jardim,
O perfume doce de qualquer flor,
para furtar teu sentimento
de conservação e cuidado.
Mas nas mãos não, nunca arrancais
as sempre-viva, gardênias ou girassóis,
deixai-os lírios e jasmins ao sol,
a enfeitar o jardim, com vida.
Nas tuas mãos dou-te sempre a escolha:
Flor ou vida?
A primavera querida!
Paula Belmino
terça-feira, 14 de setembro de 2021
Anjo dentro do pote
No sertão da minha infância, a água era mais que o líquido precioso que saciava a sede, era sinônimo de remédio milagroso, e trazia a superstição: Na beira do rio, da lagoa, do açude e até no pote de barro dentro da casa vivia a mãe da água que à noite descansava, dormia sonolenta. E se acaso o filho chamasse os pais pedindo água, o simples fato de oferecer-lhe o copo d’água era motivo do ritual:
A água estava dormindo, e era necessário acordá-la antes de beber, era preciso pedir licença à mãe d’água para sorver-lhe seus goles e matar a sede da criança .
Minha mãe sempre nos aconselhava a beber água antes de deitar, mas como quem tivesse comido sal, a sede acordava a mim ou as minhas irmãs, e temendo irmos ao pote e dar de cara com o anjo da guarda dentro, nós a chamávamos. Mamãe levantava, ia à cozinha, abria com cuidado o pote, de onde uma rã também dormia e de susto pulava. Com um copo de ágata ou alumínio, minha mãe retirava água e ia derramando noutro copo, num movimento frenético, passando e repassando até que a água também acordasse, deixando-nos ainda mais aguadas de vontade.
Ao fim do ritual, a água servida fresca, saciava nossa sede, e nos acalmava, pois a mãe levantara bem antes do anjo da guarda, impedindo-o cair dentro do pote.
A mãe d’água com certeza guardava com ela seres místicos, além de peixes e anfíbios. No sertão, em qualquer pote d’água habitava o supremo, pares de asas, anjos que à noite saciavam a sede quando a criança não bebia água antes de deitar. A mãe d’água guardava um anjo no pote ou uma rã no fundo dele, raspando e cantando vida.
Paula Belmino
segunda-feira, 30 de agosto de 2021
Água de Batismo
A lembrança mais terna que a
menina tinha do padrinho eram dos dias de espera para as festas do padroeiro ou
de semana Santa, quando o padrinho que vivia numa cidade grande voltava à
cidade Natal para se reunir à família. A menina guardava toda a ansiedade no
coração para poder dar a bênção e receber dele com todo carinho um sorriso e a
generosa sorte:
—Deus te abençoe Paulinha e te faça feliz!
E junto com a bênção vinham
balas, presentes, às vezes um dinheiro que Paula jamais havia ganhado e com o
que compraria um tecido para um vestido novo, um calçado.
Paula não lembrava bem a
fisionomia do padrinho. Os adultos têm pressa em mudar, mas ela sabia que ele
se parecia muito com seu pai, a quem observava nas muitas fotos nos álbuns que
a sua mãe Maria Chicó, também sua madrinha sempre lhe mostrava. Na fotografia a gente permanece sempre como na
memória do coração.
A menina era quase parte da
família, vivia na casa, via Maria fazer crochê, ler, ajudava varrer um quintal
e ouvia muitas histórias sobre os filhos na cidade grande enquanto conversava
com a comadre.
A mãe de Paula era quase parte da família, e ao se casar e ter a primeira filha
viva após abortos e filho natimorto e até anjinho, tinha sido dada por afilhada
ao chefe da família, o sr. Chicó Felipe.
O dia do batizado, porém, caiu num
sábado de feira, quando a muita gente da zona rural vinha para fazer as compras
da semana, e como não pode sair da bodega, o Sr Chicó Felipe enviou o filho
Ribamar para ser padrinho por procuração, outorgando-lhe a responsabilidade de
elevar a Deus a alma da criança junto à esposa Maria, madrinha de vela e à
filha Zefinha, madrinha de apresentação.
Paula sabia esta história de cor e salteado, com ricos detalhes contados pela
mãe e pela madrinha Maria, inclusive que ela havia feito xixi no Padrinho, e
que ele muito jovem, não se zangou, mas ficou feliz pois se sentiu mesmo
padrinho por também ter sido " batizado " pela menina.
Ribamar trocou a roupa ,e voltou à cerimônia
feliz e prestativo com Paula no colo. Dessas memórias se alimentava a menina
que aguardava um ano inteiro para reencontrar a madrinha Zefinha e o padrinho
Ribamar que quando chegava parecia saído dos sonhos, e se não vinha deixava um
vazio no olhar da criança, mesmo quando a casa dos "Felipes" fervilhava
de filhos e netos em redor da matriarca.
Todas as boas histórias da vida da
menina têm seus padrinhos nelas, os almoços de semana santa, as noites do mês
de Maio e do padroeiro São Francisco, e o Natal. No Natal principalmente, as
luzes se acendiam e ela estava sempre nas fotos em frente à árvore e perto da
manjedoura, da casa dos padrinhos, por sinal uma das mais belas da cidade.
Os anos passaram. Paula cresceu, virou
mãe, assim como Ribamar, pai e avô, e ainda vive longe do seio familiar, entretanto
como se o tempo não tivesse passado, Paula ainda o espera todo ano em visita à
sua terra.
A ciranda do tempo girou, a vida
mudou, mas permanece imóvel na sua alma, a alegria dos dias de festa, no dar e
receber a bênção. Permanecem parados no tempo o padrinho a sorrir e a menina a
lembrar, pela milésima vez, que no dia do batizado, como água de batismo, o
molhou. Com amor o escolheu, de forma inusitada para padrinho, o batizou.
Paula Belmino
Feliz aniversário Padrinho José Ribamar . Vou ser sempre a menina Paulinha a lhe esperar.



