quinta-feira, 18 de março de 2021

Serenata pra Salete




Sapo Sansão  caiu  no poço 

Não  podia sair de lá 

O sapo sem saída, 

Passou  a noite a coaxar.


Salete do quarto saiu

O sono  logo perdeu 

Sansão solitário, 

Coaxava o canto seu. 


Sapo Sansão dentro do poço,

Salete sem sono  a ouvir

O sapo desesperado,

Queria do poço  sair.


O sol  já  saía 

E Sansão sapo a soluçar.

Lá  no fundo do poço 

Soava o seu chamar.


Salete segue o som 

Para o sapo salvar

Desce um balde ao fundo  poço 

Que  ideia salutar!


O sapo sobe  no balde

Silencia  o coaxar.

E já  em terra agradece

Por Salete lhe salvar.


Salta aqui, salta acolá

Some no meio da mata.

À  noite Salete dorme e sonha,

Sansão  lhe faz uma serenata.


Paula Belmino

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Poema que fiz ontemà noite inspirada  num sapinho no quintal . O nome Salete dei à  uma grande amiga  professora  que após  ler confessou ter um sapo de estimação chamado Sansão, dai batizei-o. Um presente para esta grande amiga profissional apaixonada  por literatura. 

Ilustração do poema desenho  da minha sobrinha Hadassa. 

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#frog #poema #desenho #ler

segunda-feira, 15 de março de 2021

Programa Sala de Leitura



 Ato de Ler


Leio o livro,

As entrelinhas,

As palavras lavram minha alma,

Torrentes de fogo e água.

Leio o livro,

Faço-me palavras,

Emoções substantivas,

Ações reverberam meus passos.

Leio o livro,

As narrativas,

A história de muitos povos

Entrelaça-se à minha.

Leio o livro,

Construo olhares,

Pontes do indizível

Dando voz ao impossível.

Leio o livro,

Teço oportunidades

Direitos de ler, refletir, indagar

Políticas para refazer a humanidade.

Leio o livro,

Refaço-me no sonho,

Ou na ambiguidade das relações

Faço-me cidadão.

Leio o livro,

Mais que as palavras

Para além das histórias escritas,

Leio a mim, leio o outro, leio o mundo.

 

Paula Belmino


Com grande prazer participei do programa @sala.de.leiturarn Sala de leitura com o jornalista Adriano Gomes. Uma roda de conversa com os escritores potiguares Jadson Carvalho @jadsoncarvalhojor e Araceli Sobreira @aracelisobreira sobre ações e projetos de fomento à leitura.
Passem lá no canal do YouTube para ver este momento onde também apresento minha obra "A menina que sabe chover com ilustrações de @francisco.dam @editorainverso
E já deixando a deixa sobre o lançamento de meu novo livro pela @editoracja que em breve acontece.



quinta-feira, 11 de março de 2021

Quando a vida era pipoca



  Era tempo de inverno. A chuva lavava a terra, a alma.

  Formavam-se riachos fininhos, alimentando os rios temporários que levavam na correnteza a seca, a tristeza, as lágrimas de alegria de quem ansiava a chuva por tanto tempo.

  Quando se fazia estiagem, a areia varrida pela água da chuva, de tão fina, parecia de praia, fina, leve, sem pedras, secada pelo sol escaldante e pelo vento que mudava a paisagem. No chão, o rastro da água registrava a passagem do pequeno riacho.

   A areia servia para as crianças brincarem, fazendo estradas com seus carrinhos de bois de espigas de milho e enchendo as roladeiras de latas vazias com pequenos furos para que, ao rolarem presas às mãos por um pedaço de fio, fizessem montinhos no meio do riacho feito vale encantado. 

  A areia era útil ao brincar e também aos afazeres domésticos. Servia para arear vasilhas, dar polimento em canecos de alumínio, deixar uma bateria inteira de panelas brilhando. Areia para polir e água de chuva para enxaguar. De tão polidas, secando-se ao sol, eram verdadeiros espelhos nos quais se podia enxergar apenas a felicidade trazida como bênção pelo inverno.

  A areia fina dos rios formados por chuva temporã trazia em sua composição mais que partículas de rochas, contava histórias, trazia a ancestralidade, era a voz de muitos caminhos, dos sonhos, a passagem do tempo de seca para a boa fartura. O avô colhia o milho, colocava na esteira para secar e quando seco, debulhava, e à areia misturava-se a magia sagrada. 

 Para a alegria de toda família, a areia no alguidar esquentava e com o fogo bem quente começava estalar, e o milho  transformava-se. 

Enquanto a magia  era feita ele nos perguntava:


-  O que é , o que é?

Uma igrejinha  preta,

Um sacristão de pau, 

Uns anjinhos  dentro

Tocando  berimbau?

  Era um tempo feliz, feito de areia e singeleza. Tempo em que a vida virava pipoca para o bom tempo festejar.


Paula Belmino 


quarta-feira, 10 de março de 2021

Fada Madrinha

                                                                      Mary Cassatt – Lydia fazendo crochê


Cai a tarde.
Na cadeira de fio
se balança Lilia.
Crocheta casaco,
manta, touca, e sapatinho.
Na calçada, em paz
pousa um passarinho.

Embaixo da sombra
Brinca a criança vizinha.
-A bênção madrinha?
Com desejo de sorte
Lilia com amor
A menina abençoa
-Deus te faça feliz,
Com uma vida boa.

A criança corre, sorri,
Feliz a brincar.
Lilia com mãos de fada
inventa um mundo
a crochetar.
Enquanto a menina
Vive a sonhar.

Paula Belmino



Deus te abençoe querida madrinha. Maria Barbosa Eu ainda me acho a criança vendo-a  fazer crochê na calçada embaixo do pé de castanhola.



segunda-feira, 8 de março de 2021

Ser Mulher

 



 

És força, és luta,

O colo que ampara,

As mãos que afagam

Os seios que alimentam.

 

Mas és também livre

Aceitas, ou te fartas.

Resistência e valor,

És mãos calejadas.

 

Útero que aninha

Ou apenas sangra

Nas tuas luas, emancipada

No voo de tuas asas.

 

És anseio, sonho, escolha

O direito de ir, de ser, de querer, não querer.

Corpo e alma abertos para guardar,

E revelar segredos que te fazem mulher.

 

Paula Belmino

 

domingo, 7 de março de 2021

Alquimia de Domingo




Acordo ainda  sonolenta com o som dos pássaros no quintal. A  dor de cabeça  que deitou comigo ainda está ali, chatinha  incômoda.  Levanto, lavo o rosto,  um mini ritual de skin care:  esfoliar a pele oleosa que pesa o olhar, escovar os dentes.  Prendo o cabelo  num  coque  e lavo o óculos,  com o mesmo  cuidado que acabara de lavar os olhos .Depois deles já  não enxergo mais.

Na cozinha passo um  café, e o cheiro me transporta à  casa de meus avós. O avô a torrar  café  num caco sobre a fogueira e depois a socar no pilão,  que em nada parece com este café  moído,  embalado à  vácuo,  que do modo  antigo só permanece o cheiro.  Sirvo uma torrada  e fatias de queijo de manteiga, pedaços  que  trazem alegria e espantam a  dor de cabeça,  mesmo sabendo que mais tarde doerá a barriga, pois além  da visão  afetada, a idade   também trouxe intolerância à lactose,  mas ainda assim vale o prazer de comer o queijinho fresco de manteiga com café  quente. É como  se voltasse  à  infância,  o avô  no quintal  torrando o café,  a avó no fogão à lenha  mexendo nata  de leite  guardada por dias, num caldeirão  fervendo,   mexida com a colher de pau, sem parar,  raspando bem o fundo da panela, para  não  grudar. A nata ia transformando-se, primeiro espuma, manteiga, e depois de coada, a borra. Uma alquimia que saia da panela,  invadia o olfato , enchia a memória  e arquivou minha infância, ainda presente aqui, perfumada como o café, macia  como o queijo, a trazer a lembrança da manteiga, e da  borra com farinha que a avó  oferecia no final do preparo.

O domingo  parece mais leve ao acordar-se assim inerte, sem pressa alguma, sem preocupação, o pensamento abstraído do mundo.  

Tomo o café a sonhar.  Volto a infância, quando  eu era ainda  terra, areia fina nos pés, os joelhos  ralados a brincar vendo o avô pilar café cantando e minha avó de lenço na cabeça junto ao fogão fazendo manteiga, e por fim  entregar-me o caldeirão  frio para raspar. Um caldeirão  mágico  onde os sabores  da infância  feliz foram depositados misturados à fumaça de café torrado, que vervo agora na xícara e no mastigar,  em silêncio absoluto.


Paula  Belmino